Quase Perdi Meu Voo

Quase Perdi Meu Voo

A semana inteira eu repetia, com a confiança de quem vive cercado de roteiros, reservas e passageiros apressados: “Dessa vez, vou viajar sem perrengue.” Era quase um mantra. Organização não me falta. Afinal, trabalho com isso.

Mas o mundo adora pregar peças em quem está sempre ajudando os outros a viajar com tranquilidade.

O alarme, num surto de independência, decidiu tirar folga justamente naquela manhã. Acordei com a luz atravessando a janela e uma intuição desconfortável, daquela que cutuca antes mesmo de você olhar o celular. Quando vi as horas, senti o coração dar um salto coreografado.

Levantei como quem tenta alcançar um trem já em movimento. A mala, que passei a semana alimentando com cuidado, bloqueou o zíper na última hora. A camisa escolhida não cooperou. O café ficou para trás, me olhando com o abandono silencioso de quem já conhece a pressa.

Lá fora, o trânsito parecia meditar. Uma fila interminável de carros se arrastando, cada semáforo exibindo um humor filosófico. E eu ali, debatendo mentalmente com o tempo como se ele fosse um funcionário em greve.

Cheguei ao aeroporto com a sensação de que tinha atravessado um labirinto. O painel piscava meu voo com uma frieza que só os painéis eletrônicos são capazes de ter. Corri. Corri como quem já viu esse filme antes. Porque já vi. Muitas vezes. De ambos os lados do balcão.

E repare: sou agente de viagens.

A atendente me olhou com aquele misto de compaixão e eficiência que só existe nesses momentos de borderline. Entreguei o documento com o fôlego desalinhado. Ela digitou, observou, sorriu de leve.

“Deu tempo.”

É impressionante como tão poucas palavras conseguem reorganizar o espírito.

Segui pelo corredor rumo ao embarque com um sorriso torto e uma pergunta brincando na cabeça: como alguém que ajuda tantas pessoas a viajarem sem sustos quase perde a própria viagem?

A resposta apareceu logo depois, quando respirei fundo perto do portão. Viajar nunca começa no aeroporto. Começa no ritmo da semana, nos detalhes que subestimamos, nos pequenos atrasos que fingem inocência. E ninguém está imune a isso. Nem quem trabalha com isso todos os dias.

Talvez seja justamente essa mistura de experiência e tropeços que me lembre, de tempos em tempos, por que gosto tanto desse universo. Porque ele é vivo. Imprevisível. E sempre disposto a ensinar.

Pelo menos, nessa rodada, o caos não se sentou na janela.

um forte abraço e até a próxima.

Paulo Aguiar

Fundador da Turispédia, traz na bagagem 45 anos de experiência em hotelaria, aviação e agências de turismo. Sua missão é usar esse conhecimento para transformar seus sonhos de viagem em realidade.

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