Um Papo Quente e a História do Frio

Um Papo Quente e a História do Frio

“Alô? Cícero? Fala, meu velho! Tudo bem?”

A voz do meu amigo Cícero, do outro lado da linha, chegou abafada, quase um sussurro. Não porque ele estivesse com segredos, mas porque o calor do Rio de Janeiro parecia ter roubado até o fôlego da nossa conversa matinal.

“Tudo péssimo, Paulo! Péssimo! Aqui na Tijuca parece que ligaram um maçarico no ‘máximo’ e esqueceram de desligar! Que calor é esse, meu Deus?”

Dei risada, mas uma risada que mais parecia um suspiro resignado. Ele tinha toda razão. Os últimos dias têm sido um teste de resistência. Caminhar na rua é como entrar num forno, e dentro de casa, se não fosse o bom e velho – e barulhento – ventilador, talvez já tivéssemos virado churrasco.

“Aqui em Niterói não está diferente, Cícero. Estou pensando seriamente em me mudar para um iglu no Polo Norte. Ou, quem sabe, para o shopping mais próximo, onde o ar-condicionado é a única salvação da humanidade.”

Cícero soltou um grunhido de concordância. “Pois é! Penso nisso o tempo todo. Como é que o pessoal antigamente sobrevivia a um calor desses sem um bendito ar-condicionado? Devia ser uma tortura!”

A pergunta do Cícero me fez parar. “Tortura, meu amigo, é pouco! Mas sabe que essa sua pergunta me deu um estalo? Fico imaginando a saga da humanidade para domar o calor… A gente hoje liga um botão e esquece que por trás desse conforto tem uma história e tanto!”

E foi assim, em meio a reclamações de um calor infernal e suor escorrendo, que a nossa prosa telefônica virou uma viagem inesperada pela história do ar-condicionado. Afinal, nós, do “Na Bagagem”, adoramos desempacotar as histórias que fazem parte do nosso dia a dia, mesmo as que envolvem a temperatura do ambiente.

Imagine só: antes da era digital (e da era do ar-condicionado, claro!), as civilizações antigas já se viravam como podiam. Os egípcios, por exemplo, eram mestres em técnicas de resfriamento. Molhavam juncos e os penduravam nas janelas; a evaporação da água, com o vento, trazia um alívio temporário. E à noite, eles enchiam vasos de barro com água e os deixavam no sereno para esfriar. De manhã, usavam essa água “refrigerada” para beber ou refrescar o ambiente. Um luxo para a época!

Os romanos também não eram bobos. Construíam aquedutos não só para levar água potável, mas também para circular água fria pelas paredes de suas casas mais abastadas, criando uma espécie de refrigeração primitiva. Tinham até banhos frios para se refrescar nos dias mais quentes. Chique, não?

Mas a grande virada, o verdadeiro “Eureka!” da refrigeração moderna, veio muito tempo depois, no início do século XX. E não foi para o conforto humano, pelo menos não inicialmente.

“Sabe quem a gente tem que agradecer, Cícero?”, perguntei ao meu amigo, que agora parecia mais interessado que o normal, apesar do calor. “Um engenheiro chamado Willis Carrier!”

“Carrier? Que nome familiar…”, ele murmurou.

“Sim! Em 1902, ele foi contratado para resolver um problema numa gráfica em Nova York. A umidade e o calor estavam deformando o papel e borrando a tinta, atrapalhando a produção. Carrier, então, projetou um sistema para controlar a umidade e, de quebra, a temperatura. O objetivo era industrial, mas a ideia de resfriar o ar era revolucionária!”

O primeiro ar-condicionado de Carrier era enorme, barulhento e caríssimo, claro. Longe de ser um item de luxo para residências. Mas o conceito estava ali: uma máquina capaz de remover o calor e controlar a umidade do ar. Daí para a aplicação em cinemas, lojas de departamento e, finalmente, em nossos lares, foi um pulo, ou melhor, algumas décadas de inovações e aprimoramentos.

“Então, Paulo, a gente está aqui morrendo de calor, e tudo começou por causa de um papel que não queria secar?”, Cícero riu. “Inacreditável!”

“Pois é, meu caro! E hoje, o que seria de nós sem ele? Esses aparelhos que às vezes reclamamos do barulho, da conta de luz… eles são a nossa pequena máquina do tempo, nos transportando para um oásis de frescor em meio ao deserto urbano.”

A conversa seguiu, com Cícero me contando sobre a última vez que o ar-condicionado da sala dele pifou (“Foi o apocalipse, Paulo, o apocalipse!”), e eu, pensando em como o simples ato de ligar um aparelho esconde séculos de engenhosidade humana para enfrentar um inimigo tão primordial: o calor implacável.

Então, da próxima vez que você sentir aquele alívio gostoso ao entrar num ambiente climatizado, lembre-se do Cícero, de um papel que borrava tinta e de todos os egípcios e romanos que, à sua maneira, já sonhavam com um pouco de frio. É uma longa e refrescante história que, no final das contas, faz a gente valorizar ainda mais o nosso companheiro de verão: o ar-condicionado.

E agora, se me der licença, Cícero, vou ali tomar um banho gelado e depois ligar o meu amigo… no máximo!

Um forte abraço!

Fundador da Turispédia, traz na bagagem 45 anos de experiência em hotelaria, aviação e agências de turismo. Sua missão é usar esse conhecimento para transformar seus sonhos de viagem em realidade.

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