Álgebra das Emoções
O coração do torcedor é um território de geometria variável. Na terça-feira, cabia uma arena inteira, pulsando em uníssono com cada passe. Na quarta, encolhera para o tamanho de um botão, observando um drama alheio que, de tão familiar, doía como próprio. Assim vivi minha semana bipolar: metade herói, metade espectador de um filme que não sabia se queria ver até o final.
Na terça-feira, a coragem em vermelho e preto começa com a elegância de quem conhece seu valor. No primeiro tempo, o Flamengo joga com a paciência de quem carrega uma vantagem mínima; houve toque, domínio e a paradoxal serenidade. Mas o futebol, como a vida, especializa-se em reviravoltas. Logo no início do segundo tempo, a expulsão de Gonzalo Plata – lance seco, polêmico, cartão vermelho direto – transformou a estratégia em sobrevivência. Ou melhor dizendo: a própria estratégia da sobrevivência.
O que se seguiu foi um verdadeiro ato de coragem, digno do que me acostumara a ver nos áureos tempos da era Zico, Júnior, Leandro e companhia. Onze homens reduzidos a dez, longe de casa, contra um time faminto e uma torcida ensurdecedora. Cada defesa não era mais um lance técnico – era um ato de vontade. O goleiro se esticando além do possível, o zagueiro lançando o corpo onde a bola iria passar. Nos acréscimos, o tempo dilatou-se como um elástico prestes a romper. Quando o apito final ecoou, o 0x0 não trouxe euforia, mas um alívio profundo, seguido de um orgulho sereno. Meu time havia sido bravo quando precisava e garantira o passaporte para Lima no dia 29 de novembro. Ele estará lá, no mesmo palco daquele mágico 23 de novembro de 2019, quando o Flamengo conquistou o bicampeonato da Libertadores após 38 anos de espera.
Na quarta-feira, a calculadora emocional em ação. Sentei-me para a tarefa paradoxal de “secar” o Palmeiras. Mas o verbo era impreciso. Eu era um homem dividido:
1×0: “Um susto, mas ainda está controlado.”
2×0: “O empate já está aí… melhor parar por aqui.”
3×0: “É, acho que vão passar. E se passarem…”
Com cada gol palmeirense, uma calculadora emocional recalculava a rota. O quarto gol, aquele que decretou a classificação sem sequer precisar da loteria dos pênaltis, trouxe a clareza paradoxal: “É… melhor assim.”
Porque no fundo da complexa álgebra emocional, duas verdades coexistiam: a delícia prática de evitar o adversário mais forte na final e a secreta admiração por quem busca o épico e o encontra.
No fim, entendi que ser torcedor é habitar essas dualidades. Celebramos nossos heróis de terça não apenas pela classificação, mas pela coragem que nos devolvem – aquela que transforma 90 minutos de sofrimento tático em epopeia.
E “secamos” os rivais de quarta com aquele respeito ambivalente que só existe entre quem compartilha a mesma paixão. O Palmeiras não foi eliminado, mas nos deu a chance da revanche e de engrandecer a nossa conquista final. E há uma estranha honra nisso.
Porque no fundo, sabemos: as grandes conquistas só brilham de verdade quando iluminadas pela qualidade do adversário que nos fez superar. E meu Flamengo, rumo a Lima, carrega não apenas uma vaga, mas a coragem demonstrada em Avellaneda e o espelho de um rival que nos mostrou o seu valor – e que engrandecerá a nossa própria vitória.
Continuem se cuidando e um Forte Abraços a todos!

Acredito que as melhores viagens são aquelas que fazemos para dentro. No “Na Bagagem”, compartilho histórias, memórias e reflexões sobre o que realmente importa carregar conosco: as experiências que moldam quem somos.
Acredito que as melhores viagens são aquelas que fazemos para dentro. No "Na Bagagem", compartilho histórias, memórias e reflexões sobre o que realmente importa carregar conosco: as experiências que moldam quem somos.



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